11.5.06

Custou-me. Custa-me sempre. Sinto que o abandono, e a si, e a ti, e a ti. Custa-me conduzir com os olhos molhados quando viro costas. Custa-me sempre. Eu quero que saiba que o amo, e a si, e a ti, e a ti. Nunca o digo mas nunca o deixo de sentir. Sou um piegas quando faço a mala, quando agradeço a compota que me vai alegrar as manhãs, quando olho para o chão para evitar que veja os meus olhos, a arder, e, a começarem a afogar-se nas gotas que os inundam. Sou um piegas quando não consigo olhar-lhe nos olhos sem chorar e dizer que vou ter saudades suas, e suas, e tuas, e tuas. Respiro ainda dentro da sua barriga. Suspiro quando me afaga a cabeça com a sua mão grande. Conforto-me quando os vejo a rir e a olhar o futuro ali tão perto. Gostava que o nosso tempo fosse um adágio. Quando a contrario não o faço para a magoar, nem a si, nem a ti, nem a ti, faço-o porque gosto de si. Porque acho que merece muito mais do que os assuntos de que fala, porque quero que seja feliz e que não perca tempo com coisas que a incomodam. A vida é feita de pequenas coisas nem sempre boas e que também têm que ser vividas. Ensinou-me isto desde sempre, não foi ontem. Não sou nem nunca serei tão especial como você, e você e tu e tu. Sou o que sou, hoje, graças a todos vós e a mais alguém. Os meus defeitos são seus, as minhas qualidades são suas, os meus medos são os teus e a minha angústia é a tua. A minha alegria por vê-la feliz e a si, e a ti, e a ti faz-me andar, faz-me pular da cama de manhã, todas as manhãs independentemente do meu cansaço. Cheguei a casa e vou sempre chegar a casa e me levantar cedo com a ansiedade de o ver e a si, e a ti, e a ti.
Vejo-o todos os dias quando olho para o telefone. Sempre o vi, à minha frente, como alguém a quem seguir, sempre me vi orgulhoso a olhar para si. É o meu herói, sempre foi e sempre será. Vejo-a todos os dias quando acordo, sempre a vi, sempre a senti. Sempre foi mais do que o meu/nosso braço direito, foi também o esquerdo, a cabeça, as pernas, o coração. Vejo-te todos os dias, quando isso não interessa para nada e a ti mais novo que nunca o deixarás de ser. Tenho imenso orgulho em vocês os dois, no que já conseguiram e no que vão conseguir. E sinto-me tão feliz por ter respirado o vosso ar durante tantos anos e de ter aprendido com vocês a lutar, a responder, a gostar, a sentir falta, a brincar, a correr, a andar de bicicleta, a irritar-me, a ralhar, a discutir, a ficar triste, a ficar alegre, a chorar, a rir e a quase todo o resto. É por isto tudo, e mais, que quero que o tempo nunca passe por vós todos e por ti, quero que pare! É por tudo isto que sinto que a abandono, e a si, e a ti, e a ti, sempre e todas as vezes que parto.
Depois passa e recomeço a minha vida e olho para trás e sinto que o que escrevi e pensei não chega para definir o que sinto no jet lag familiar. E porque a vida segue lá fora... também eu sigo a minha vida. E gosto dela e gosto de vos ver contentes com ela e gosto do meu sol aqui e gosto da minha chuva porque tem algum sentido no meio de todas as coisas.